brussels by summer
Hoje Bruxelas acordou soalheira e o evento, por raro, deu-me vontade de escrever qualquer coisinha.
Amo Bruxelas no Verão. Desterro cinzento ao longo do ano, ilha deserta onde a jangada encalhou a páginas tantas da vida, no Verão é como se o resto do ano (das décadas de expatriação) fossem pesadelo de que se acorda moído e angustiado para o alívio de uma realidade bem menos atormentada.
Bruxelas ao sol é como casa pintada de fresco, como cidade pronta para receber jogos olímpicos. Desaparecem a negrura das fachadas tristes, as nódoas do uso sem amor, a imundície do descuido dos cães e do desapego das gentes. No Verão os belgas tristonhos desaparecem nas férias e os que ficaram animam-se. Os milhares de expatriados e imigrantes tornam-se turistas de ombros libertos dos encargos e da saudade, como se o Sol que nos aquece agora a alma fosse o mesmo que Lá deixámos. E que quando nos visita aqui apetece receber com refeições à esplanada, num abraço quente de família reencontrada.
Nas praças de Bruxelas, no Verão, nascem palcos e improvisam-se recintos de festas, onde os sem-abrigo, desempoeirados e bem dormidos, nos acolhem como anfitriãos aos seus velhos conhecidos. Partilha-se então música, conversa, noitadas de copos e gargalhadas, que quase nos fazem alucinar um outro futuro.
Gosto de trabalhar no Verão. O percurso habitual na confusão do trânsito e das multidões transforma-se, no Verão, num passeio descontraído entre compagnons de route, as imprecações e azedumes transfiguram-se em cumprimentos afáveis e sorrisos cúmplices. Deixam-se em casa as personagens de circunstância e as gravatas, as hierarquias esbatem-se, os horários desleixam-se, os telefones calam-se de encomendas e urgências. O trabalho torna-se ocupação de tempos livres, o escritório sala de estar, as tarefas urgentes prazeres de amador, os projectos aventuras exploratórias, o computador caderno de viagens, os emails postais de férias.
Amo Bruxelas e gosto de trabalhar no Verão. Pena a nossa desgraçada incompetência para fazermos com que o Verão seja quando a gente quer.
Paz, 21.6.2009
PS. Disse eu que Bruxelas acordou ensolarada. Às 3 enegreceu, às 5 desabou água. Não faz mal. O Outono ainda vem longe.

Foto: The Jumping Traveller